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O bem-estar dos bebês em movimento, espaço e vida cotidiana; entrevista com Teresa Godall, presidente da Associação Pikler Hengstenberg da Cataluña

11/05/2018

Fotos: Fabricio Remigio/Ateliê Carambola

 

Entre os dias 20 a 26 de abril de 2018, a Ateliê Carambola Escola de Educação Infantil trouxe ao Brasil a catalã Teresa Godall, referência internacional quando o assunto é "melhorar o bem-estar dos bebês", como ela mesma gosta de dizer. Sua pesquisa é fundamentalmente voltada à relação educativa na disposição do espaço e dos materiais que buscam a autenticidade do brincar e dos movimentos livres dos bebês.

 

A eficácia na construção de melhorias nos entornos educativos na primeira infância é o grande tema da presidente da Associação Pikler Hengstenberg da Cataluña, que esteve por aqui como palestrante do IV Seminário Internacional do Centro de Pesquisa e Documentação Pedagógica da Ateliê Carambola, e aproveitou para fazer uma formação com nossos educadores nas duas unidades da escola: Berçário e Educação Infantil.

 

Generosa, atenta e receptiva, compartilhou com nossa comunidade educativa não somente sua experiência profissional, mas suas formas qualitativas de observação a partir de um olhar antropológico – "de entrar em um lugar que não conversa com nós mesmos, mas de algo que podemos olhar com distância, e ao mesmo tempo com um grande senso de responsabilidade."

 

Assim, podemos dizer que Teresa gosta de olhar os detalhes ou deixar que os detalhes surjam, pois acredita que educar o olhar para captar esses momentos, que muitas vezes não parecem evidentes, é a grande chave que nos permite entender e sermos comprometidos com as melhorias no desenvolvimento do futuro da infância.

 

Futuro da infância, logo, um pensamento que ela acredita compartilhar com o assessor pedagógico da Ateliê Carambola, Paulo Fochi, doutorando em Educação (USP) com estágio doutoral na Universidad de Barcelona (sob supervisão de Teresa Godall), mestre em Educação, pedagogo e coordenador do Observatório da Cultura Infantil – OBECI.

 

               "O futuro da infância
                               é a infância nela mesma
"

 

Para Teresa, o futuro da infância não vem de formas futuras. "O futuro da infância é a infância nela mesma". E foi isso que ela dividiu em uma semana de trocas preciosas, no qual o olhar e a sensibilidade vieram acompanhados de muita teoria e prática, mas sobretudo, de muita escuta verdadeira.

 

Antes de seguir pela entrevista abaixo, compartilhamos com vocês um exercício recomendado por Teresa.

 

Busque conforto em uma cadeira.
Sente-se e feche os olhos.
Coloque uma mão sobre a outra.
Solte o peso da mão que está por cima.
Deixe que a mão de baixo a sustente.
Permaneça assim por três minutos.
Feito isso, troque a posição das mãos.
O que acontece? O que você sente?
De que forma essa mão acolhe a outra?

 

Foi assim, compreendendo no corpo e no toque, que não é o controle ou a força que educa, mas sim como sustentamos com confiança o bebê ou a criança, permitindo que ela se acomode com liberdade de ser e se movimentar na nossa manifestação de cuidado afetuoso.

 

 

 

Blog da Carambola: Você foi professora de Educação Infantil em escolas inovadoras de Barcelona, dirigiu cursos de especialização e pós-graduação em Educação Física e também atuou na formação inicial de professores. É professora titular da Universidade de Barcelona, coordena e dirige cursos de formação continuada e atua também como formadora de formadores - com este trabalho, criou um grupo de estudos chamado Moviment, espai i vida quotidiana (Movimento, espaço e vida cotidiana, em tradução livre). Conte como foi seu primeiro contato com a abordagem Pikler.

 

Teresa Godall: Eu fui apresentada ao conhecimento de Pikler em meados dos anos 1980 graças às formações que realizamos em Barcelona com a fisioterapeuta alemã Ute Strub. Éramos um grupo de pessoas, profissionais de diferentes áreas que já tinham recebido formação sobre "consciência sensorial" com alunos de autores como Thèrese Berterad, Elsa Gilder, Charles Brooks e outros.

 

Agora, como professora universitária, procurando enfoques pedagógicos relacionados ao desenvolvimento do movimento livre e a tomada de consciência do adulto sobre este desenvolvimento livre, encontrei um primeiro artigo, de Anna Tardos, publicado em 1989 na revista Infancia.

 

Me interessa o jogo e o movimento livre. Creio no desenvolvimento do indivíduo único e genuíno e, ao mesmo tempo, na universalidade da infância – um período que sempre carregamos dentro de nós e que nos conecta com nossa humanidade mais orgânica.

 

Segundo Pikler, o bebê em liberdade desenvolve muitas formas de se sentar, o que lhe dará flexibilidade e disponibilidade corporal. Pode nos contar um pouco sobre essas formas e de que maneira elas se desenvolvem em conjunto com as demais, em uma mescla de motricidade?

 

Sentar-se é um padrão motor, o único padrão motor. Existe uma posição intermediária, descrita por Emmi Pikler e Judit Falk, que é a posição “meio sentado” ou “semi-sentado”.

 

O padrão de sentado responde à habilidade motriz da ação ou ações de “sentar-se”. Ou seja, de adotar (chegar à posição) ou abandonar esta posição com total autonomia. Esta realidade, que é possível para todos os bebês que chamaremos de saudáveis, acolhe nesta palavra todas as crianças que têm um desenvolvimento rápido, lento ou muito diferente.

 

Para responder à sua pergunta, creio que uma apreciação muito interessante nos aportes que Emmi Pikler nos oferece em sua teoria sobre o desenvolvimento motor autônomo é que cada padrão, e concretamente o padrão de sentado, tem formas e expressões corporais muito diferentes e evolutivamente diferentes, de modo que não existe uma posição “ruim” de sentar-se, já que se existe autonomia motriz na infância todos podem passar de uma forma expressiva a outra, dentro de um mesmo padrão, como o sentado, neste caso.

 

Isto permite ao bebê dispor, como você disse, de uma grande facilidade corporal. As redes musculares se integram e há um maior domínio de seu corpo e de seu movimento global. O resultado é uma maior harmonia, precisão e naturalidade nas ações e nas mudanças de posição.

 

Pautas universais geram perguntas e expectativas sobre o desenvolvimento dos bebês e o tempo padrão para que cada um comece a rolar, engatinhar, caminhar e segurar coisas, por exemplo. De que maneira se pode ajudar famílias e/ou educadores a compreender a singularidade e a cultura de cada bebê?

 

Por sorte, somos tão diferentes! Ver as diferenças, estar atento a detalhes, ajuda a ver que existe uma enorme e extensa normalidade em tudo. Essa "normalidade", e aqui não me refiro a estatísticas, testes ou escalas diagnósticas sobre o desenvolvimento, tem a ver com a universalidade da infância, ou o que podemos chamar de cultura da infância. É uma etapa que não poderemos nunca, talvez, chegar a conhecer.

 

Acredito que os profissionais da infância (assistência social, saúde e educação) precisam investigar sobre essa universalidade da infância e aprender a olhá-la repetidamente.

 

As famílias devem reconhecer seus valores e gozar de estar e aprender com seus filhos e filhas. Eles são exigentes, nossos professores da vida. Cada filho é distinto e distinta é e sempre será a relação que temos com cada filho. Sabemos que há filhos que são claramente diferentes. Outros, devemos descobrir suas diferenças, seus valores, sua essência para ajudá-los a crescer com confiança e amabilidade – e assim poder criar um vínculo para fazê-los pessoas melhores.

 

Não se trata, portanto, apenas de aceitar o filho ou a filho, mas de descobrir suas aptidões, seus ritmos, sem ficar presos a eles. Saber nos adaptar às circunstâncias, mas também tomar a responsabilidade de gerar um entorno adequado, seguro, familiar e aberto ao futuro.

 

Como funciona a diferença entre os comportamentos universais do bebê e a individualidade do bebê?

 

Todas as crianças vão caminhar e aprender a brincar sozinhos e a falar, se não houver uma dificuldade grave e orgânica. Todas vão passar por etapas de desenvolvimento gerais e universais. Mas, se oferecemos um entorno adequado, que profissionalmente chamo de “entorno ótimo”, podemos fazer com que este desenvolvimento universal se ajuste a cada criança, ao ritmo de cada bebê. A isso chamamos de bem-estar. Ou seja, que em seu entorno disponha de tudo o que precisa em seu desenvolvimento.

 

Um bebê que tem bem-estar se desenvolve sem sofrimento. Um bebê que pode se mover e acessar o que precisa, que sente a segurança nele mesmo e nos que cuidam dele, é um bebê que tem bem-estar. Esse bebê não chora mais do que em momentos pontuais, come o que precisa e seu brincar é atento, às vezes concentrado, ativo. Seus movimentos são seguros e sua forma de se relacionar com o outro é amável e confiada.

 

Antes de conhecer a experiência Pikleriana, antes de ter observado o orfanato da rua Lóczy [o orfanato não existe mais, concretamente, desde os anos 2000] eu não teria dito a mesma coisa.

 

De que maneira podemos observar os bebês de verdade? O que podemos fazer para estarmos perto deles, valorizando suas linguagens e tudo aquilo que eles querem nos dizer com seus corpos?

 

Acredito que essa pergunta contém a chave do bom desenvolvimento. A observação. Uma observação compartilhada. Ou formas de observação que nos permitam tomar distância da situação educativa, seja familiar ou profissional. Se há uma boa observação, podemos gerar um critério, podemos fazer perguntas e pensar em possibilidades. Os bebês, seus gestos, expressões e movimentos, suas formas de se relacionar com os objetos e com os outros (adultos e crianças) nos dão as chaves do que é necessário.

 

Cada vez que observamos uma mesma situação e, de novo, compartilhamos esta situação, vemos que cada situação é diferente. O bebê e sua humanidade complexa vão nos dando respostas às nossas perguntas e observações. Se detectamos detalhes essenciais, necessidades verdadeiras, poderemos orientar nossa forma de relação, acompanhamento ou intervenção.

 

Fazemos isso através do tato e da linguagem – corporal e verbal. Se somos coerentes e sinceros em nosso modo de “ensinar”, eles aprendem com nossa paciência e inteligência, e nossa cultura passa a ser a deles.

 

Como observar os bebês com paz e tranquilidade na sociedade que temos hoje, em que é difícil conciliar trabalho e família, com as exigências impostas às mães, que não deixam tempo para nada?

 

A sociedade da hoje valoriza muitíssimo a infância. Acontece que os adultos estão presos em esquemas sociais que andam muito depressa, de maneira que não permitem encontrar um espaço para estar, para reconhecer aquilo que queremos de verdade.

 

A vida profissional e social nos exige, ou melhor dizendo, nos faz sentir exigidos por algo que parece que decidimos previamente. Tudo tem que ser perfeito. Queremos o melhor.

 

Byung-Chul Han, que é um autor que me interessa profundamente, fala da sociedade do cansaço, mas também sobre ver o tempo e seu aroma a partir da nossa capacidade de atentarmo-nos às complexas formas de controle e autocontrole em nossa sociedade neoliberal.

 

Acredito que podemos fugir da nossa responsabilidade de ser e estar bem (bem-estar) ou passar o dia correndo para ter mais ou acreditar estar vivendo melhor, mas os filhos são uma âncora na vida de quem quer ser si mesmo com eles. Antes de ser o melhor pai ou mãe, ou curtir com eles, ou de ser o melhor profissional, busquemos ser pessoas.

 

Como mães e educadoras, em quem devemos confiar quando estamos buscando informação?

 

Há tanta informação e tanto marketing nessa informação que é realmente difícil responder a essa pergunta. Devemos confiar em nós mesmos e ir ver, deixar que nos permitam entrar, estar um tempo pelo menos suficientemente longo para imaginar nosso filho ou filha nesse lugar.

 

Acredito que a escuta, assim como a observação, deve ser compartilhada. Às vezes, nós mesmos não somos capazes de ver o que é o melhor, mas somos capazes de sentir se estamos bem em um lugar, com uma forma de fazer.

 

 

                                                   "Não é suficiente entender.
                Gosto mais de pensar em 'com-preender'.
"

 

 

Comparação entre povos e os cuidados com o bebê. Você tem pesquisas sobre o tema?

 

É uma grande inspiração ler sobre antropologia. Reconheço que li pouco sobre etologia. Acredito que a educação requer um compromisso pessoal, um compromisso com a humanidade. Não é suficiente entender. Gosto mais de pensar em "com-preender". Abraçar a realidade complexa enquanto podemos sentir, pensar ou estar curiosos para conhecê-la melhor. Compreender, às vezes não implica em entender, mas em aceitar para aprofundar mais nas mensagem que cada situação traz.

 

Me interessa não somente a antropologia, mas sobretudo as metodologias científicas que se desenvolvem e que respeitam a realidade que se quer conhecer. Para mim, parece um desejo de respeitar o universo da pequena infância.

 

Uma grande professora, Marta Mata, dizia que os professores e educadores não nos devem tirar a utopia. Não queremos chegar até ela, mas ela nos orienta em nosso dia a dia e em nossas formas de compromisso com a educação que implica em produzir mudanças ou movimentos.

 

Quais são suas técnicas educativas e de consciência sensorial?

 

Uma de minhas maiores paixões é a prática do Tai Chi Chuan. Graças ao meu mestre e amigo, Tew Bunnag, entendi que a prática corporal, acessível a todos, deve consistir no desenvolvimento da responsabilidade sobre nosso modo de estar no mundo.

 

Ele considera que o cuidado com a mente, o coração e o corpo deve tomar consciência em práticas e exercícios próprios, mas também de respiração, Qi Gong e meditação, além de se relacionar com a arte (música, dança, artes plásticas, fotografia, etc.) e desenvolver alguma forma de cuidado com o outro (massagem, cozinha ou a capacidade de escuta).

 

Pratico também ioga e me interessam as novas expressões e técnicas de consciência como atenção plena e tantas outras.

 

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