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Semana mundial do brincar de corpo e alma

24/05/2018

Texto escrito por Josiane  Pareja Del Corso para o site do Aliança Pela infância, no especial Semana Mundial do Brincar 

 

Grupo 1 e o quintal de possibilidades na Ateliê Carambola (Unidade 1 - Rua São Samuel)

 

Brincar de corpo e alma. Este é o tema da Semana do Brincar 2018, que acontece entre 20 e 28 de maio.

 

Depois de falar sobre espaço e tempo, é  vez de refletir sobre o corpo e toda força que essa palavra traz. É pela linguagem do brincar que a criança de zero a três anos de idade adentra o mundo. Nessa fase, podemos dizer que a criança é, na verdade, um corpo integrado que busca descobrir tudo ao seu redor - cada ruído, fragmento, cheiro ou parte bem pequena de um todo muito maior que ela busca interpretar.
 

O corpo da criança, portanto, é um meio que ela mesma utiliza para a linguagem do brincar. Nada se aprende através do corpo. "É o corpo que aprende", como costuma dizer Paulo Fochi. Sem o corpo, o brincar se torna mecânico e conduzido. Sem esse corpo, presente e inteiro, não há integração, pois o verdadeiro brincar, na criança, é aquele que ela descobre
nos caminhos da imaginação e da criação.

 

Até os seis anos, a criança encontra-se em um momento de muitas aquisições. Existe nela um corpo que se subjetiva em busca de identidade, um corpo que cresce numa velocidade incrível e que dessa forma busca equilíbrio, mas não apenas nos passos. Esse mesmo corpo busca a relação consigo e com o outro, a fim de se encontrar. Há ainda o corpo que busca
as mais diversas linguagens, verbais ou não, para comunicar como a criança se apresenta ao mundo e se relaciona com ele.

Assim falamos de alma, de um corpo que ganha a visibilidade para si mesmo, e que vai conquistando processos, realizando descobertas e se manifestando a partir do que sente e do que encontra em todos que participam desse caminho. A alma, portanto, é essa construção da essência que se revela a cada momento.
 

A criança, aqui concebida como um sujeito de direitos, que tem o direito ao brincar, de corpo e alma, é protagonista de seus percursos quando acompanhada de adultos que acreditam nesse potencial inventivo, ativo e criativo que ela tem, é. A criação e a inventidade, vale dizer, só adentra o corpo pela experiência que a criança vivenciou. Portanto, a linguagem do
brincar é a forma pela qual a criança se utiliza para comunicar seu modo de pensar o mundo. Assim ela nos mostra como interpreta o que vê e sente, um processo infindável de descobertas e que possibilita a construção de sua relação com o outro, o estar com o outro.

 

A linguagem do brincar de corpo e alma ganha sentido quando este é genuíno, permitindo o acesso à gramática da fantasia e a utilização de todo o seu repertório construído dentro da sua cultura familiar e dos espaços que frequenta. E mais: através do brincar, a criança pode ainda estabelecer relações entre seus percursos de vida e até mesmo reconstruí-los ou resignificá-los.

 

Quando falamos em gramática da fantasia, cabe aqui dizer que esse termo, na linguagem do brincar, é quase a revelação da alma, da essência. É quando a criança transforma uma concha do mar em avião, barco ou pássaro. Quando aquela concha vira, de fato, um avião, ainda que um pouco concha. Nesse gesto, a criança se transporta, ocupa um outro
lugar, sai do real para o imaginário por alguns motivos, mas por dois, em especial: está inteira no processo e tem liberdade de movimento e pesquisa.

 

Grupo 2 e o jogo simbólico na Ateliê Carambola (Unidade 2 - Rua Jureia)

 

Como isso se dá? Bem, isso só é possível se ela estiver cercada de adultos que entendam esse processo e respeitem seu tempo. Brincar de corpo e alma pressupõe uma criança inteira em espaços planejados para que ela tenha escolhas que vão seguir em descobertas, hipóteses, teorias e criações. Brincar de corpo e alma pressupõe ter objetos
que não transformem a criança em executora, mas sim em grande inventora. Logo, objetos que possibilitem a transformação para o simbólico, uma vez que a criança simboliza algo somente quando tem interiorizadas as experiências e convivências com outras crianças e/ou adultos nesses espaços saudáveis e genuínos.

 

Simbolizar é fazer uso de uma capacidade mental extremamente qualificada, é usar a mente para alcançar os mundos mais distantes sem "sair do lugar". Assim, quando uma criança brinca de corpo e alma, ela leva para dentro de si uma imagem que vai estar sempre com ela: um pouco da infância que carregamos a vida toda e que, por estarmos com ela de forma significativa, podemos acioná-la em muitos outros momentos da vida - até mesmo quando a realidade parece ser insuportável.


São as memórias dessa infância que nos darão apoio na vida adulta, em que
o brincar permanece, mas de forma ressignificada.

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